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A difícil decisão de partir

Updated: Jan 16

Rompimentos são difíceis, sempre. Especialmente em relacionamentos duradouros, tomar a decisão de terminar pode demorar, e muito. Por vezes permanecemos muito tempo, até mesmo anos em um relacionamento que já não nos satisfaz, que nos tira muito mais lágrimas do que sorrisos. Ficamos muito tempo fantasiando com o término antes de efetivamente terminar. Por vezes se passa uma vida inteira fantasiando sobre um término sem nunca efetivá-lo. E é normal que seja necessário tempo de maturação para tomar uma decisão tão importante, pois, apesar da frustração na relação atual, o rompimento configura a solidão como um risco real. A decisão torna-se ainda mais difícil quando ainda existem sentimentos amorosos pelo par: não bastasse o reencontro com a condição de estar só, o término configura a perda do afeto. Dói, muito. Além disso, não é incomum o surgimento do medo de não encontrar outro alguém que se torne nova fonte de afeto e apazigue a solidão.


Sim, há muito em jogo, e por isso mesmo a decisão é tão difícil. Nós nos apegamos a certas possibilidades em detrimento de outras pelo medo de desaparecerem nossas pretensões de segurança. A angústia provocada pelo nosso desabrigo existencial essencial está na raiz desse medo. Para aplacar essa angústia e medo, desenvolvemos uma compulsão por controle e segurança, ferramenta ilusória frente à essência de nossa existência, que se constitui na medida em que somos, sem possibilidade de previsões e cálculos. Se abrirmos mão da ilusão do controle do devir, podemos vislumbrar o que Martin Heidegger chama de “abertura” e perceber que somos e estamos continuamente em aberto. Nossa existência é de fato um leque infinito de possibilidades.


Somos condenados à liberdade, dizia Jean-Paul Sartre, que nos fala da angústia de nos percebermos completamente livres e responsáveis pelas consequências de nossas escolhas.


Não há garantias de acerto nem possibilidade de prever certamente os resultados. Então nos resta respirar fundo e encarar viver: equilibrar-se constantemente entre escolhas e consequência, como nos ensina Sartre. O medo de perder uma suposta segurança, o medo da solidão e em verdade qualquer tipo de medo é conservador e pode ser paralisante. Mas ao invés de olharmos para o que vamos perder quando de um rompimento, podemos escolher olhar para o que estaremos ganhando: em primeiro lugar, a libertação do sofrimento. De início o sofrimento é enorme, podendo ser até devastador. Perder o afeto de alguém que ainda amamos pode ser como morrer, e por vezes é mesmo. Faz-se necessário um luto. Mas passa. Se você não fugir da dor desse luto, se fizer contato e se permitir vivenciá-lo, ele passa. Só é possível atravessar a dor fazendo contato com ela. Então você pode escolher sofrer em doses homeopáticas a vida inteira ou sofrer profundamente, vivenciar de fato o luto e finalmente se libertar daquele sofrimento para sempre.


Além disso, você ganha também a possibilidade de estar disponível para um novo encontro amoroso, pois a menos que você não esteja em um relacionamento monogâmico, a possibilidade de encontrar outro par que melhor satisfaça suas necessidades e te tire muito mais sorrisos do que lágrimas só pode se dar se você estiver disponível e desimpedido para viver um novo amor. Você tem esperança de que esse novo encontro ocorra?


Não, não há garantias – mas o medo é tão conservador quanto a esperança é revolucionária.

O amor… ah, o amor! Tema universal nas artes e na vida, o amor é nascente que verte afetações humanas incansavelmente. Uma definição precisa parece tarefa impossível. Podemos recorrer a dicionários e lá encontraremos algumas definições. Mas se voltarmos nosso olhar para a Filosofia e suas definições independentes de amor (Eros, Philos, Ágape e Fati), podemos supor que, de fato, amor pode ser definido de várias formas e, considerando que cada ser humano é um universo, podemos supor também que amar é uma experiência única e talvez diferente para cada pessoa.


Por isso, inicio esta reflexão com minha própria definição de amor: aceitar o outro como ele é. Na medida em que saímos da primeira fase da relação amorosa, do apaixonamento, a realidade vai se apresentando e vamos nos dando conta de que o outro não é tudo o que esperamos e desejamos. Não existe um parceiro ideal para nós. Nosso parceiro precisa ter alguns aspectos do nosso “ideal”, mas nunca terá todos. E sendo humano, trará consigo também sua parcela de defeitos – assim como eu e você, caro leitor(a).


Se a relação consegue superar a fase da decepção que constitui o confronto com a realidade – as limitações e o negativo de cada um – ela evolui para uma fase de amadurecimento, onde as diferenças são aceitas e um diálogo verdadeiro pode ser estabelecido. É daí que parte minha definição de amor: aceitar o outro como ele é.


Entretanto, partindo de um lugar diametralmente oposto, essa definição pode ser utilizada para legitimar qualquer tipo de comportamento: “se você me ama você tem que me aceitar do jeito que eu sou” – e não é bem assim. No amor amadurecido, aceitamos o outro como ele é e o outro não invade nossos limites pessoais. Cada um tem seus próprios limites e é fundamental que eles sejam respeitados. Conhecer os próprios limites, comunicá-los ao parceiro e estabelecer contratos visando que eles sejam respeitados – esse é o exercício contínuo da relação amorosa.

Quando o outro viola um contrato estabelecido, podemos nos sentir desrespeitados, negligenciados ou invadidos. Os contratos são estabelecidos para evitar esses sentimentos – eles são uma proteção – e devem cumpridos. É claro que errar é humano e por vezes é necessário esforço e um pouco de tempo para se adaptar a um novo contrato. Porém, quando um contrato mutuamente estabelecido é constantemente ignorado, ele perde seu valor e razão de existir.


Aceitar o outro como ele é não significa aceitar qualquer coisa. Significa ter consciência das limitações e do negativo do outro e seguir amando, valorizando suas qualidades e seus positivos. Quando a limitação e o negativo do outro nos machuca, nos invade, faz aflorar sentimentos de negligência, desrespeito, desvalor, o estabelecimento de contratos entra em cena. E vice versa, é claro. Os contratos nos protegem, protegem nosso parceiro e protegem também a própria relação. Comunicar claramente nossas necessidades é fundamental para estabelecer contratos claros e eficazes, e respeitar os contratos é respeitar a relação.


Então, pode acontecer de o parceiro concordar com um contrato, mas tomar a decisão unilateral de não respeitá-lo. É a tal da má fé – dizer que está de acordo com um contrato para se ver livre de uma situação, já sabendo internamente que não está disposto a cumpri-lo, deixando o parceiro vulnerável às feridas que seriam evitadas com o cumprimento do acordo. É nesse momento que o outro pode alegar: “se você me ama você tem que me aceitar do jeito que eu sou”, em uma tentativa de forçar o parceiro a permitir que seus próprios limites sejam ultrapassados em nome do amor.


Nesse caso, é fundamental lembrar que o maior amor que temos é o amor próprio. Que amar é respeitar os limites do outro – amor é cuidado. E sim, aceite o outro como ele é, como alguém que não respeita os contratos estabelecidos – aceite este fato. E siga sua vida longe dali. Aceitar o outro como ele é também pode nos libertar de insistir em um relacionamento que não nos faz bem. Nesse caso, a aceitação abre caminho para o novo. Porque toda pessoa tem o direito de ser feliz, mas a felicidade não é entregue de mão beijada, é preciso conquistá-la. E sim, você pode. Você merece ser feliz.





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